“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Jung

Há uma aparente ingenuidade na crença de que o outro do discurso não me define, mas é apenas uma aparente ingenuidade, porque o “eu” não existe sem o “tu” e, portanto, a relação com o outro me constitui, conforme as correntes filosóficas da linguagem que regem meu entendimento sobre o discurso na constituição das relações interpessoais. 

Por ser reflexo das interações discursivas marcadas sócio-historicamente, o outro me define. Eu não existo sem minhas vivências discursivas, sejam elas edificantes ou dolorosas; ele me define porque sou reflexo dos discursos, das leituras e da presença do outro em minha vida, em minhas decisões. Eu não estou sozinha no mundo e não sou um ser totalmente independente e é, por isso, que é tão importante compreender a prática da alteridade nas relações.

Bakhtin, filósofo russo, no início do século XX, falava sobre nossa incompletude na ausência do outro, já que nossas práticas discursivas refletem sinalizações evidenciadas no discurso de outrem. É o outro que define minha postura em uma dada situação discursiva e essa postura fundamenta-se no entendimento das diferenças que há entre o “eu” e o “tu”. O discurso da professora Flávia na pós-graduação é bem diferente da “tia Flavinha” diante de Davi. É o outro que indica meu posicionamento linguístico permitindo-me interagir ou não em situações particulares. Neste sentido, alteridade significa reconhecer o outro como um ser diferente de mim.

Nas diferenças poderão surgir convergências a partir dos diálogos vivenciados nas interações. Na relação com o outro, percebemos que não há a perfeição, mas na imperfeição dos encontros discursivos celebra-se a sutileza do implícito: do não dito mas compreendido; dos discursos suspensos mas percebidos… celebra-se a felicidade no encontro com o desconhecido que, ao dizer o óbvio, confirma a experiência da alteridade. 

A carga semântica da palavra alteridade ultrapassa a ideia do ser empático, visto que é o reconhecimento efetivo do outro, com todas suas imperfeições na vida do “eu”. Ainda que o outro não perceba, não reconheça, quando um dos sujeitos discursivos tem clara a ideia de alteridade nas relações, há um respeito construído no primeiro contato, na primeira palavra proferida, porque na realidade, no encontro interdiscursivo há a realização do uno, do “tu” em mim.

Por fim, esse texto é apenas para dizer que somos interdependentes, que o outro, filosófica e linguisticamente, me define e a paz nas relações acontece na consciência dessa sinalização; esse texto nasce porque precisamos apenas respeitar o outro nas suas diferenças e, em cada interação discursiva, enxergar o ser em sua essência sem julgamentos, sem reticências. Esse texto é apenas para dizer, mais uma vez, que o outro me define, me faz ser grata, me faz crescer na dor e na vivência da paz.

2 thoughts to “Alteridade, diálogos, paz nas relações…

  • cleide aragâo de souza Rêgo

    Alteridade vem do latim-alter-que significa justamente o outro,é um reconhecimento total do outro, se tornando responsável pelo outro,pois precisamos ser sensível à alguém diferente de si mesmo, sair de seu próprio umbigo e conhecer outra realidade,respeitando o direito do outro.

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    • Flavita Conceição

      Isso, Cleide!

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