E quem poderia imaginar que as ruas do Recife Antigo despertariam, em pleno carnaval, vazias, sem movimento algum, sem o lirismo dos blocos apaixonados desfilando entre os foliões? Neste 2021, a Covid-19 conseguiu silenciar as estreitas ladeiras de Olinda, as poéticas ruas de Recife, os carnavais do sertão e agreste de Pernambuco; silenciou os versos cantados pela multidão que se reencontra todos os anos na terra de Alceu, Lenine, Chico Science, do Maracatu, Batutas de São José, Nena Queiroga, Maestro Spok, a terra do gigante Galo da Madrugada!! Ah, que saudade!!

Mas, embora não possamos reviver cada abraço apertado, cada sorriso largo pelas memoráveis esquinas de Recife e Olinda, a felicidade acontece nas imagens partilhadas entre amigos e amigas, todos e todas a partir de seu universo particular; a felicidade acontece em cada música cantada no carro, no supermercado, na cozinha, nas reprises dos grandes carnavais deste sofrido e belíssimo Brasil.

Ah, Brasil, quem poderia imaginar que ficaríamos sem a imponência dos Carnavais de Sampa e do Rio? Mas, como diz Moacir Franco “a nossa vida é um carnaval, a gente brinca escondendo a dor”… e o carnaval, para muitos/as é bem isso: uma fuga dos problemas, a tentativa de paralisar o que fere curtindo os carnavais por esse país afora. Por isso, maiúsculo Brasil, eu creio que o “bloco da ciência” e o “bloco da felicidade” jamais silenciarão, porque não há doença, vírus no mundo, que consiga calar a esperança de poder reviver, em breve, os grandes carnavais. E já que a saudade bate forte no peito, eu canto a ti, grandioso Brasil, “último regresso”, do Bloco da Saudade, um dos blocos líricos mais tradicionais do carnaval pernambucano:

“Falam tanto que meu bloco está
Dando adeus pra nunca mais sair
E depois que ele desfilar
Do seu povo vai se despedir
Do regresso de não mais voltar

Suas pastoras vão pedir
Não deixem não que o bloco campeão
Guarde no peito a dor de não cantar
Um bloco a mais é um sonho que se faz, nos pastoris da vida singular

É lindo ver o dia amanhecer
Com violões e pastorinhas mil
Dizendo bem que o Recife tem
O carnaval melhor do meu Brasil”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *